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Startups brasileiras crescem na contramão da crise

Durante a pandemia, o mercado de inovação acelerou o processo de amadurecimento e impulsionou empresas de tecnologia no país

Em forte expansão neste período de crise, o ecossistema de inovação é, hoje, um pilar fundamental para a economia brasileira — trazendo soluções que atendam às necessidades de distanciamento social impostos pela pandemia ou escancarando oportunidades que vinham crescendo antes da chegada do coronavírus. A situação impôs uma virada de chave em toda a sociedade: “Estamos trocando o pneu com o carro andando, mas, podemos dizer que quase todas as pessoas incorporaram algum tipo de transformação digital em suas vidas em 2020, mesmo que ainda estejam aprendendo a utilizá-la”, afirma Jihan Zoghbi, presidente da Associação CIO em Saúde e CEO da startup de telemedicina e telerradiologia Dr. TIS.

Jihan foi uma das convidadas do programa Outro Olhar, da Rádio Bandeirantes, apresentado pelo jornalista Cleber Benvegnú e transmitido neste sábado (27). Abordando o tema “O mundo das startups”, ela debateu os desafios do setor junto com os CEOs Rodrigo Franco Dias, da ConnectFarm — uma plataforma que gerencia dados para melhorar a produtividade no campo —, e Cezar Gehm, da PipeRun — plataforma de gestão e impulsionamento de vendas.

Programa “Outro Olhar” sobre o mundo das startups

Burocracia e equipes reduzidas 

Os aportes de investimento em startups estão crescendo com a necessidade de serviços e produtos inovadores no mercado, mas a burocracia para regularizar uma empresa no Brasil ainda é um entrave. A healthtech Dr. TIS surgiu com o propósito de democratizar o acesso à saúde. Depois de pronta, a plataforma, que começou a operar com serviço de telerradiologia em 2016, esperou dois anos pela regularização da Anvisa. A ferramenta armazena imagens médicas na nuvem e permite, pela internet, que médicos acessem exames e façam laudos de qualquer lugar do mundo, enviando direto ao paciente e ao médico de referência dele. Isso ajuda, por exemplo, na análise de casos raros por especialistas de outros hospitais e evita que os pacientes saiam de casa para pegar os exames. Além disso, diminui custos de impressão e manutenção de servidores. 

Mas não é só a burocracia que desafia as startups. “Nosso formato de empresa conta com equipes reduzidas. É difícil competir com companhias maiores e bem estruturadas”, conta Jihan. Assim que a telemedicina foi regulamentada no Brasil, ela deu start à implantação do serviço em instituições de saúde que são referência no país, como Moinhos de Vento e Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. “São clientes exigentes, têm padrões e burocracias — o que é normal em hospitais de grande porte. Você não pode errar. Na época, a gente focou nestes dois clientes do Rio Grande do Sul e, em duas semanas, já estávamos operando com a telemedicina no ar, com as customizações que eles pediram — porque cada um tem suas peculiaridades. Isso nos levou longe no boca a boca. Um indicando o outro. Fechamos 140 clientes em 2020, dobrando o faturamento, mas, confesso, foi difícil dar conta de atender todos em um curto espaço de tempo”, comemora Jihan.

Qualificação profissional e educação

Para o CEO da PipeRun, Cezar Gehm, outro grande desafio é o estímulo à qualificação profissional: “Toda startup que vai crescer, ela precisa de gente. E o Brasil tem déficit de gente qualificada no mercado da tecnologia”. A PipeRun é uma plataforma de gerenciamento de dados que ajuda equipes de venda a impulsionar negócios. Ela surgiu a partir de um software utilizado internamente na empresa de marketing digital que Cezar mantinha com o irmão, Osvaldo. Há quatro anos, eles perceberam que a ferramenta poderia ajudar outros empresários. “Nosso negócio ajuda os times comerciais a organizarem o processo de vendas. A maior parte das tarefas, que são repetitivas e burocráticas no dia a dia, a gente tira isso da rotina com a automação. O objetivo final do sistema é aumentar a produtividade”, explica Cezar. “Nosso propósito é ajudar as empresas a venderem mais e melhor. No final das contas, a gente ajuda o Brasil a crescer”, comemora. Hoje, a PipeRun tem cinco mil vendedores utilizando o sistema diariamente. São mais de mil clientes numa história de quatro anos. E, para 2030, a perspectiva é estar atendendo 20 mil empresas brasileiras.

Incremento na produtividade 

A ConnectFarm, empresa de gerenciamento de propriedades para aumento da produtividade, surgiu há três anos, e lida com o desafio de inserir no campo — setor considerado tradicional e com lideranças de gerações mais velhas. “A plataforma coleta informações do solo, informação das plantas, informação do clima e o processo do produtor. Através de um banco de dados, utilizamos algoritmos, que são fórmulas matemáticas, para cruzar informações e, então, aplicar o conhecimento agronômico, criando recomendações específicas para cada agricultor, ou seja, aquilo que vai servir melhor para ele e para a propriedade dele”, explica Rodrigo Dias.

O CEO da startup diz que o crescimento da empresa se deve aos jovens que, hoje, conseguem ver a conectividade dentro de sua propriedade rural. “A tecnologia avança tanto através de imagens de satélite, de plataformas no próprio celular. Esse jovem começa a se sentir integrado. E aquela geração mais antiga de agricultores não têm a mesma agilidade para lidar com as plataformas. Então, a gente vê que, gradualmente, a adoção da tecnologia está acompanhando o ritmo da transição na agricultura”, conta o empresário, que atende 130 clientes em sete estados e pretende abrir escritórios nos Estados Unidos, Paraguai e China. “Nosso maior desafio é mudar a cultura do agricultor. Fazer com que ele olhe mais para as estratégias, que é o que a gente faz, do para o dia a dia da fazenda, algo  que qualquer outro funcionário poderia fazer, conclui Rodrigo. 

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